Perecimento

março 20, 2018



(TEXTO FICTÍCIO)

    Talvez essa seja a minha última semana nesse lugar. O ar condicionado parece ficar mais frio a cada dia. As paredes brancas e sinalizadas com placas de silêncio deixam o ambiente ainda mais gélido. Essa maca com lençóis brancos faz barulho cada vez que me mexo, mas já deixou de ser desconfortável. Creio que me acostumei, afinal, estou aqui no hospital há 8 meses. A comida já não tem um gosto ruim. Na janta sempre recebemos uma sopa aguada e com pouquíssimo sal, tão pouco que nem parece tê-lo.
    Quando eu tenho melhoras, peço minha irmã para me ajudar a ir ao lado de fora, pois gosto de sentir ar fresco. Há um belo jardim com margaridas brancas e amarelas, com algumas flores vermelhas também, que não tenho ideia de qual espécie seja. Eu gosto dessa combinação. É simples, singela e confortável. Só de conseguir sair daquele quarto e ver as flores, sentir um pouco de raios solares na minha pele, já se torna tudo agradável. Talvez essa seja a última semana que verei tudo isso, tenho que aproveitar.
    Normalmente no pátio ficam outras pessoas com a mesma condição que a minha. Algumas melhores, outras piores. No começo eu me assustava, mas hoje, eu nem sequer ligo. Aliás, já fiz amizades por aqui. Algumas já se foram, algumas permanecem e outras continuarão aqui depois que acabar os meus dias.
    Um pouco depois da entrada do hospital tem a sala do Noah, o médico que cuida de mim desde que vim parar aqui. Alto, com cabelos negros, barba fechada e sempre aparada. Tem um corpo bem definido, mãos grandes e fortes, porém suaves. Seu toque é sempre macio. Eu gosto de quando ele vem me examinar todas as tardes. É gostoso sentir mãos quentes em mim, há tempos eu não sei o que é estar quente. Pessoas doentes normalmente são frias, o pouco de calor que nosso corpo tem é para manter nosso coração batendo, mesmo que vagarosamente.
    Mas não, ele não faz meu tipo mesmo sendo tão bonito. O Ren faz. Ele é dois anos mais velho do que eu. Alto também, mas ao contrário do Dr Noah, seu corpo não é nada definido. Não há curvas generosas, nem braços fortes e rígidos. Ele é magro, cintura fina, ombros largos e aconchegantes. Tem olhos castanhos e brilhantes, boca carnuda e um sorriso.... Ah, que belo sorriso! Quando ele sorri, tudo ao redor fica feliz. Eu fico feliz...  
    Tem um pouco mais de uma semana que não o vejo, a não ser em meus sonhos. Conversávamos quase todos os dias, sempre tínhamos assunto. Ele foi a pessoa mais marcante para mim durante todos esses meses internada. Lembro da nossa última conversa, nela eu perguntei o que ele pretendia fazer depois que saísse daqui.
    – Eu tenho um sonho, você faz parte dele. Falamos disso amanhã, ok? – Ele então me deu um beijo na testa e saiu do meu quarto com um sorriso enorme, de orelha a orelha, mas no fundo algo o incomodava. Ele não queria que eu percebesse que estava mal.
    Uma hora e 5 minutos depois chegara a notícia. Eu não podia acreditar, fiquei sem chão. Eu não conseguia parar de chorar, havia um desespero enorme dentro de mim e acabei não aguentando, desmaiei. Acordei algumas horas depois na sala de emergência, deitada, fraca, respirando oxigênio através de uma máscara e algumas agulhas cravadas no meu braço, de novo. Minha irmã estava no canto do quarto enquanto minha mãe andava na direção da porta conversando com o Noah.
    – O coração dela está cada vez mais fraco, não creio que haverá tempo até o transplante. Seu nome é um dos últimos na fila... –Eu escutava isso, enquanto via minha irmã chorar e minha mãe ficar cada vez mais triste, afinal, ela sabe o que está para acontecer. Até já me convenci disso.
    No dia seguinte, lá estava eu, com um vestido preto que a mamãe comprou para mim, de pé em frente ao corpo da pessoa que eu mais me apeguei e que estava apaixonada. Cheguei mais perto e peguei sua mão. Magra e ainda mais fria que de costume. Pálida e com aspecto roxeado. Não é a primeira vez que vejo um cadáver. Nesses oito meses vividos em meio a pessoas doentes, participei de alguns funerais. São todos bem parecidos, não muda muita coisa.
    Hoje, alguns dias depois do ocorrido, ainda me sinto triste. Sinto falta dele, sinto falta de poder desabafar e conversar sobre coisas que eu não falava com outras pessoas, nem com o médico. Dentro de mim sinto que está acabando meu tempo, minha família também já percebeu isso. Mas eu estou bem, acredite. Não sei o que há após o fim de nossa vida material, mas espero que eu esteja indo para um lugar melhor, mais confortável, onde eu não sinta tanta dor física.
    Nunca tive a oportunidade de brincar como crianças normais, ir a baile de formatura, dançar ou nadar. Nadar era meu sonho, a primeira e única vez que fiz isso não ocorreu nada bem. Na minha adolescência também não tive o gosto (ou desgosto) de sair com amigos para algum lugar e beber algo, ou virar a noite na casa de um amigo, ter experiências amorosas e carnais.... Não, isso nunca me aconteceu. Nunca pude ter uma vida normal como de qualquer outra pessoa. Grande parte da minha vida foi perdida ficando internada em hospitais. Agora, aos 21 anos, só quero que isso acabe logo.
    Não estou desejando meu fim, só estou sendo sincera comigo mesma, pois eu sei que ele está próximo. Já me despedi de quem eu deveria me despedir, já agradeci a quem eu deveria agradecer. Me apaixonei por quem eu deveria me apaixonar e agora, estou terminando minha vida como ela deve ser terminada. Ainda há uma última coisa a se fazer, mas creio que isso seja um segredo.
    Viva a vida até seu último minuto da forma que ela deve ser vivida. Faça o que tem de ser feito, ame mesmo que acima de tudo. Acredito que em breve nos veremos num lugar bem melhor.


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18 comentários

  1. Que lindo texto! Adorei conhecer a forma como você escreve e preciso dizer: continue! Quero ler sempre mais e mais de você <3

    Sorria sempre :)

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  2. E pensar que essa história é mais comum do que a gente imagina... Que conto lindo. Me deu saudades de escrever esse tio de texto tbm.

    Super beijos,
    Missmoon | BLOG & STORE - Por Neila Bahia
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  3. Olá, tudo bem? Amei o seu texto, que história linda! Com certeza a melhor frase é: "Viva a vida até seu último minuto da forma que ela deve ser vivida" conheço muitas pessoas que vivem a vida dos outros e esquecem da sua própria vida.
    Você escreve no wattpad? gostei do texto, você tem futuro como escritora!

    Beijos e abraços
    http://resenhasdaviviane.blogspot.com.br/

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    1. Obrigada Viviane, não conheço o wattpad, já vou procurar saber. <3

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  4. Nossa! que texto... que história linda, eu amei o seu texto!
    Foi você que escreveu? No wattpad? Manda link pra gente ler, eu gostei, achei interessante a história e o ultimo paragrafo, eu concordo com o que você disse! Não sabemos oque o amanhã espera de nós, temos que aproveitar e saber viver a vida cada segundos, momentos...

    Bjs

    https://holanda-physicaleducation.blogspot.com.br

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    1. Obrigada Holanda! haha Então não sabia nem o que era wattpad, acabei de procurar aqui. Não escrevo em nenhum lugar sem ser aqui no Notivagar. Basta seguir aqui que sempre terá uns textos meus flutuando em algum lugar! <3

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  5. Que texto lindo, me emocionei.
    Foi você que escreveu? Se sim, devo parabeniza-la, por escrever um texto triste, mas com muita doçura.

    Beijos

    camilaporai.com.br

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    1. Obrigada Camila! <3
      Fui eu sim que o escreveu. xD

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  6. Simplesmente incrível a forma como você se expressa. Gostei muito mesmo do texto.
    Parabéns.

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  7. Caramba! que post/texto tocante ♥
    Irei te acompanhar pra ler mais postagens lindas como essa. Você escreve muito bem

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    1. Obrigada Sam Joyce <3
      Acompanha sim que de vez em quando eu escreverei algo. xD

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  8. Lindo seu texto e de uma sutilidade incrível. Você trouxe um assunto que de certa forma muitas pessoas acham pesado e conseguiu passar a mensagem lindamente de forma simples e delicada. Continue com seus textos, são ótimos.

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    1. Obrigada Helô! <3 Foi um pouquinho complicado escrevê-lo, mas por fim eu consegui. xD

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  9. Linda história, é desesperadora, triste, realista e fascinante ao mesmo tempo.

    Bites!
    Tary Belmont

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